Foto de Alvaro Garcia, Jornal "El Pais"
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O papel do silêncio em Tristan e Isolde


Querida Waltraud,

Fiquei "sumida" um tempo aqui do nosso "ponto de encontro", mas esta minha ausência, meu silêncio me proporcionou algumas inspirações...

Depois de tantas vezes me encantar com a música de “Tristan und Isolde”, encontro-me também encantada com os “silêncios” que tanto “falam” nessa obra.

Gosto de comparar o silêncio com o caos, pois ambos são as bases da criação. « O Caos é a terra que nutri o Cosmos », diz os grandes ocultistas. A união do Cosmos com o Caos produz a cada vez alguma coisa de novo, que não estava nem pré-figurada, nem em estado latente, é em algum nível o que chamamos de genialidade.

O Silêncio é o Caos do som, do Cosmos; a música é o “gênio”, fruto dessa união. O Silêncio, enquanto base para o som, é o ponto de partida para a música, determinando o início dos ciclos.

Esotericamente chamamos de “grande silêncio” a experiência do espírito que, ao deixar o corpo físico, deixando também toda “matéria” relacionada à desejos e sensações, encontra-se num estado de perfeita consciência, de grande calma, onde qualquer imagem ou sensação parecem apagarem-se, até mesmo a faculdade de pensar, porém, nesse estado o espírito sabe simplesmente que ele É, onde, sendo sustentado pelo Eterno, sua alma é preenchida por uma paz maravilhosa que ultrapassa toda inteligência.

O drama de “Tristan und Isolde” (Tristão e Isolda) é um drama de silêncio, mas também de segredo, o que dá beleza a esta obra.

As palavras “silêncio” e “calar-se” estão sempre presentes, seja o silêncio de Tristan em relação à Isolde no 1°Ato, não querendo falar com ela, seja o amor que Isolde escondeu mesmo de Brangaene, onde tudo é claro para Isolde, mas somente para ela, quando diz:

O blinde Augen,
Oh! Olhos cegos,

blöde Herzen!
corações néscios!

Zahmer Mut,
Espírito domado (de)

verzagtes Schweigen!
(o) silêncio desesperador!

Wie anders prahlte
De que outra maneira

Tristan aus,
Tristão abertamente bravateou-se,

was ich verschlossen hielt!
daquilo que eu mantive encerrado!

Die schweigend ihm
Àquela que, fazendo silêncio

das Leben gab,
deu a ele a vida,

vor Feindes Rache
guardando-o silenciosamente

ihn schweigend barg;
da vingança do inimigo;

was stumm ihr Schutz
Àquilo que a proteção dela

zum Heil ihm schuf ---
a ele proporcionou salavação -

mit ihr gab er es preis!

com ela, ele isto entrega (abandona)!


Seja também no momento de tomar o filtro, que Tristan ouve a “Rainha do Silêncio”, ou o majestoso dueto de amor do segundo ato que termina no silêncio do êxito, seguido do silêncio do Rei Marke ao descobrir os amantes quando Tristan diz que isto o rei não poderia entender, até seu ápice, “Liebestod”, a morte de amor, onde Isolde diz:


Höre ich nur

Só eu que escuto

diese Weise,

esta melodia,

die so wunder-

maravilhosa

voll und leise,

e sutil

Wonne klagend,

Deliciosa e lângida

Alles sagend,

Tão eloquente

mild versöhnend

docemente reconciliante

aus ihm tönend

que jorrando dele

in mich dringet,

se infiltra no meu ser

auf sich schwinget,

que dele vibra

hold erhallend

com doçura

um mich klinget?

E ressoa em mim?


E assim ela descreve esta experiência de viver o “grande silêncio”, onde a morte dá lugar ao amor, onde o espírito É e Isolde mergulha no caos, no silêncio, no hálito do Universo.

"Liebestod" em "Tristan und Isolde"... e Isolde ascende aos céus.

Sabe Waltraud, no momento tenho pensado muito no « Liebestod » de Tristan und Isolde (Tristão e Isolda).

Liebestod que significa “morte de amor”...Morrer de amor...será que realmente já paramos para pensar que coisa fantástica representa isso?

O “morrer” em Tristan und Isolde não está em relação com dor e sofrimento. O “Liebestod” é mais do que uma morte, mas um momento de transmutação, de entrega, de chegar ao fim de um ciclo, “consumar”algo que estava determinado. Eu ousaria dizer que Isolde não morre simplesmente, mas ascende aos céus! É o momento que Isolde desperta para os planos espirituais, ela “vê”, “ouve” o que os outros não percebem. Podemos mesmo fazer analogia com um processo iniciático.

Trazer os grande mitos para a nossa realidade atual (realidade que percebemos enquanto humanidade geral) acredito que seja nivelar a situação por baixo. Somos todos Deuses em formação, centelhas divinas, e os mitos vêem nos lembrar dessa condição (ver texto sobre mitos aqui). Entender simplesmente que Isolde morre para ficar com Tristan me parece muito pouco. Esta obra vêem nos mostrar que nós que devemos elevar nossa condição atual à condiçao ideal dos mitos, que existe uma forma de viver em Amor, de “romper” com as convenções, que a possibilidade de estar em harmonia com o Universo e comprêende-lo com toda nossa alma, os processos iniciáticos, estão abertos à todos aqueles que vivem em Amor. Amor com “A” maiúsculo, amor sem egoísmo, altruísta, incondicional, de espírito para espírito.

O Amor de Isolde e Tristan não é o “fim”, mas sim o “meio” para essa condição.

Para melhor “mergulharmos” na “Liebestod”, vamos desfrutar de duas montagens sensacionais que temos disponíveis em DVD. A montagem de Heiner Müller, em Bayreuth, em 1995 e a montagem de Patrice Chéreau, no Scalla de Milão, em 2007, ambos com Waltraud Meier como Isolde, natürlich!

A idéia desse texto não é discutir a respeito das montagens, mesmo porque ambas são maravilhosas, cada uma dentro de seu ponto de vista, mas simplesmente vejo na montagem de Patrice Chéreau uma visão mais humana e na montagem de Heiner Müller uma visão que chamaríamos talvez de “sobre” humana (lembrando que refiro-me especificamente a ária final, o “Liebestod”, que é o nosso tema)

Tive a oportunidade de assistir a montagem de Heiner Müller em video em um evento wagneriano em 2006. Curiosamente na época morava próximo à Igreja da Maria Madalena em Paris, a qual frequentava regularmente. E justamente pensando no lado sagrado da morte de amor de Isolde, me foi impossível não comparar a imagem do altar dessa igreja, que representa a ascensão de Maria Madalena (porém é uma imagem ambígua, parecendo também Jesus Cristo), com o final da montagem de Tristan und Isolde de Heiner Müller. Só posso dizer que estava nos céus depois de assistir essa maravilha! Quanto a imagem, vejam vocês mesmos! (sem querer comparar Isolde com a figura de Maria Madalena muito menos de Jesus, simplesmente a forma de "ascender", a forma "sagrada" deste momento)

Ai esta a cena final...

... e este é o altar da igreja...

Interessante, não?!!


Já a montagem de Patrice Chéreau, que é magnífica dentro de uma visão mais humana, assisti ao vivo a sua estréia em transmissão pela TV, e no momento do “Liebestod”, além de toda emoção, fiquei um pouco chocada! A idéia de derramamento de sangue na morte de amor me incomoda um pouco.


O sangue é o meio de expressão para o espírito em relação ao seu corpo físico. E derramamento de sangue esta diretamente relacionado com sacrifício. O maior exemplo que podemos ter é justamente o sacrifício de Jesus Cristo pela humanidade, através do sangue que escorreu no momento de sua morte; porém Isolde não se sacrifica, ela não morre por Tristan, nem pelo amor, mas sim de amor, de êxtase divino.


Isolde busca um estado de espírito para consumar o amor divino que ela conquistou, fruto do processo alquímico da transformação da paixão em amor que acompanhamos no decorrer da obra. Sendo assim ela encerra com as palavras: “nesta onda universal da respiração do mundo, eu mergulho, eu me afogo, inconsciente, êxtase máximo!”


E então podemos mergulhar junto com Isolde, aqui na montagem de Patrice Chéreau:


E aqui na montagem de Heiner Müller:

Amfortas e a ferida da humanidade

Em diferentes versões do mito de “Perceval”, a ferida do Rei encontra-se justamente na região sacral, ou seja, nos orgãos genitais. Em sua obra “Parsifal”, Wagner representa a ferida do rei Amfortas na região abdominal, justamente no “lado”. Uma possível interpretação seria a analogia da ferida de Amfortas com a ferida de Jesus Cristo. Porém Amfortas não é o “Redentor”, mas sim espera pelo Redentor.

Como vimos com a Annick de Souzenelle, as palavras “costela” e “lado” são a mesma palavra em hebreu. Eva foi feita, não da costela, mas do “lado” de Adão, representando o seu lado feminino, aquele que ele deve unir-se, tomar como esposa, para tornar-se um Ser completo.

Amfortas porta a ferida incurável no “lado”, pois não sabendo dominar-se, deixou-se seduzir, caindo do nível divino para o nível carnal. Mas por que Parsifal resiste ao poder de sedução de Kundry? Sendo o puro, tolo, inocente, Parsifal é ainda ingênuo, precisa de alguém que lhe indique o caminho do casamento místico, o casamento do masculino e feminino que deve acontecer no interior de nós. E quem mostra tal caminho é justamente Kundry, o feminino em si, lembrando à Parsifal a memória de sua “mãe”. O ser humano tem uma memória secreta o ensinando que seu destino divino é o casamento com sua “mãe das profundezas” , seu femino interior, devendo então buscar o equilíbrio entre seus pólos feminino e masculino. “Macho”, masculino, em hebreu significa “se lembrar” e “fêmea”, feminino, significa “recipiente que contém”. O ser humano, criado a imagem e semelhança de Deus, trabalha seu pólo masculino uma vez que se lembra da Imagem de Deus enquanto sua essência, partindo assim à conquista do seu “feminino” interior, a imensa reserva de energia que jorra da inesgotável e profunda fonte interior do seu Ser.

Partindo de uma visão simplista, Kundry seria a figura da “prostituta”; definição aceitável se partirmos do idioma hebreu, onde prostituta e santa são a mesma palavra! Pois Kundry nada mais é que o espelho que Parsifal precisa.

A pureza de Parsifal o permite ver essa dualidade em Kundry, tanto que seu destino é exatamente aquele indicado por Kundry: ele vai errar pelo mundo, encontrar todos os caminhos exceto aquele que ele procura, que é o caminho que leva à Amfortas, para poder curá-lo.

Em sua errança pelo mundo, utilizando apenas do poder curador da lança, ele é o Servo de todos, e através do Serviço, de uma vida pura, ele “conquista” seu lado feminino, seu casamento com o divino, podendo assim indicar o caminho para Amfortas, finalmente curando-o.

Lembremos que nós, enquanto humanidade, portamos a mesma ferida que Amfortas, caímos do nível divino para o nível carnal, onde dependemos também do “Redentor”. Conquistemos nossa pureza interior, através do amor, tornando-nos “Parsifal” para assim também não so aguardarmos pela redenção mas sim colaborarmos no alívio da dor da humanidade.

Parsifal x Kundry: uma relação que leva do "puro, tolo" ao Iniciado

É interessante observar algumas semelhanças e, em alguns casos, os antagonismos, que apontam uma forte relação entre Parsifal, o Salvador, aquele que trilha o caminho espiritual, e Kundry, a tentadora, que justamente parece desviar Parsifal de seu caminho. Vejamos alguns itens:

1° ) Desde o começo da peça , a primeira vez que Kundry entra em cena , podemos perceber uma forte variação orquestral, uma “tensão” musical, como que representando um incômodo aos cavaleiros de Mont Salvat, como mostra o video abaixo.



Tensão que ocorre também quando Parsifal entra em cena, após matar o cisne.




2°) Em todas as religiões, o espírito vivificante tem sido simbolicamente representado por uma ave. No cisne temos uma representação para o neófito que, trilhando um caminho espiritual, busca auto conhecimento e auto controle, e que, quando torna-se um Iniciado, encontra-se imune ao efeito dos 4 elementos basicos: ar, agua, terra e fogo. O cisne pode “atravessar” pelos quatro elementos, ele pode tanto voar (ar), como nadar (agua), como caminhar sobre a terra (terra) e por ter uma unica parceira em sua existência (representando um dominio das paixoes), simboliza também o dominio sobre o fogo.

Parsifal matou o cisne. Porém a sequência da cena nos mostra que Parsifal precisa passar pela prova de auto controle e tornar-se um Iniciado, pois nos revela uma série de indícios fazendo alusão aos 4 elementos:

Quando Kundry diz a Parsifal que sua mãe esta morta, ele tenta machucá-la, jogando-a no chão (chão em francês, “parterre”), indicando o elemento terra. Quando Gurnemaz o afasta ele se sente sufocado, sentindo falta de ar: elemento ar. Kundry, mesmo tendo sido atacada por Parsifal, piedosamente vai buscar água para ajudá-lo: elemento água. Faltando o elemento fogo: a paixão que Parsifal sentirá por Kundry no segundo ato.

3°) Ainda analisando o fato de Parsifal ter matado o cisne, um terrivel crime nas terras de Mont Salvat, que foi justamente Kundry que nos disse um pouco antes, quando é tratada como um animal:

Sind die Tiere hier nicht helig?
Os animais não são sagrados aqui?


4°) Mesmo Gurnemaz compara Parsifal a Kundry, quando questiona Parsifal sobre suas origens e ele não sabe responder. Gurnemaz diz:

So dumm wie den
Alguém de estupidez proporcional à dele,
erfand bisher ich Kundry nur!
até hoje só achei Kundry!

E esta relação entre Parsifal e Kundry, que vai aos seus limites no segundo ato, vai até o fim, onde Kundry, após ter conduzido Parsifal ao caminho do conhecimento em todos os níveis, morre. E Parsifal vive. Morte e Vida que representam a magia que impera no milagre da eternidade.

O Misticismo que une Tristan e Isolde

Quando Tristan finalmente vai ao encontro de Isolde antes de descer na Cornualha, temos um leitmotiv que se repete 4 vezes.
(Clique aqui para ver este trecho da opera. Começa a partir dos 5 minutos do video)

Quatro que significa também o magnífico quaternário mágico do CALAR-SE, SABER, PODER e OUSAR, que é um método prático para aqueles que querem trilhar um caminho espiritual de auto conhecimento; e que deixa clara a união mística que buscam os nossos amantes.

Esclarecendo estes quatro principios, entendemos que CALAR-SE vai obrigatoriamente preceder o SABER, o PODER e o OUSAR, pois significa acalmar e silenciar o automatismo do intelecto e da imaginação, para atingir a devida concentração que traz conscinência para aquilo que se fala.

Dessa concentração, temos o saber que colhe os conhecimentos, as experiências, para transformar em sabedoria.
Este saber, fruto da reflexão pura, que fixando-se na memória, passa pelo processo de assimilação pelos pensamentos e sentimentos, para tornar-se uma mensagem, um simbolo comunicável.

Atingindo então o PODER enquanto querer, o poder que escolhe, que decide aquilo que quer buscar, onde e como buscar, pois pode fazê-lo, domina a situação.
Para "poder" finalmente OUSAR, onde ele ousa para elevar-se na verticalidade, além da criatura, até a essência do ser, o fogo criador divino.

Isolde vai nos dizer que ela também aprendeu a CALAR-SE quando escondeu e curou Tristan, até finalmente Tristan entender também o chamado da "Rainha do silencio" quando ele diz, no primeiro ato:
"Des Schweigens Herrin
A senhora do Silencio
heisst mich schweigen:
manda-me calar
fass' ich, was sie verschwieg,
se comprendo do que ela silencia
verschweig ich, was sie nicht fasst.
silencio sobre o que ela não compreende."

Isolde sabe o que quer, mais do que a reconciliação ela quer a quebra do convencionalismo. Todos os tipos de experiências e sentimentos que ela viveu em relação à Tristan trouxe a ela a revelação de que não se há espaço para o verdadeiro Amor dentro de estruturas impostas pela sociedade, que ela esclarecerá à Tristan mostrando à ele como ambos estão vivendo nesse mundo de aparência.

No filtro temos uma representação do PODER, filtro de morte, que Isolde o chama como filtro de reconciliação (Sühnetrank) e Tristan o chamará como filtro do esquecimento (Vergessenstrank), porém podemos entender como o próprio filtro de amor, que vai dar forças para romper cpm as convenções. (entendendo que Amor e Morte são faces da mesma moeda).
Onde finalmente ambos podem ousar no que chamamos de verticalidade, realmente na busca da essência do ser. Enquanto corpo (Tristan) e alma (Isolde) servindo ao espírito para acumular experiências e viver as máximas potencialidades divinas que portam, acender em si a chama, o fiat criador, enquanto deuses em formação.

Isolde já afirma sua ousadia quando ela explica tudo o que se passou entre ela e Tristan, deixando claro seu desejo de vingança. Porém quando ela finaliza com a frase: "Tod uns beiden"(morte para nós dois), pode-se questionar: Se ela quer vingança, porque morrer junto com Tristan?

Encontraremos a resposta no próprio libreto:

So stürben wir, Assim nós morreremos,
um ungetrennt, para não sermos mais separados,
ewig einig eternamente unidos,
ohne End', sem fim,
ohn' Erwachen, sem acordar,
ohn' Erbangen, sem medo,
namenlos sem nome,
in Lieb' umfangen, encontrando-se no amor,
ganz uns selbst gegeben, dados inteiramente um ao outro,

der Liebe nur zu leben !

para viver somente pelo amor !


E deixemos que a musica fale por si mesma:



A alquimia do Preludio de "Tristan und Isolde"

Wagner tem por caracteristica, em seus preludios, fazer um resumo de todo o drama que esta para acontecer.

Em "Tristan und Isolde" não é diferente. A harmonia entre os leitmotivs nos transmete 4 idéias gerais:

AMOR - OLHAR / MORTE - DESEJO

O OLHAR que fez surgir o AMOR, e o DESEJO que leva à MORTE. Assim como Parsifal falaria à Tristan: "A fonte do mal, da infelicidade, esta nos desejos do mundo, é preciso beber de outras fontes...".

Porém como pode o olhar que desvenda os mistérios da alma, que conduz ao amor, ser maculado pelo desejo, que leva à morte?

Mais uma vez a Astrologia nos aponta um caminho interessante. Nesta relação temos os 4 signos fixos: Touro, Leão, Escorpião e Aquario, conforme nos mostra a figura abaixo:


Sabemos que onde ha luz ha também sombra, e quanto maior a luz, maior a sombra. A sombra do Amor é a paixão, que porta em si o desejo, onde os amantes apos beberem o filtro (que nada mais é que do que a quebra do convencionalismo) traz essa paixão à tona.

Porém esse amor porta em si uma inocência dada que deve ser transformada em uma pureza conquistada, ou seja, precisa da experiência da paixão que vai trazer o conhecimento, é o amor que envolto na paixão vai buscar a transmutação dessa paixão conquistando não mais a inocência, mas sim a pureza do amor, rica em sabedoria.

Essa experiência de amor e morte é também simbolizada pelos filtros, pela troca dos filtros, que, enquanto essência, filtro de amor e morte são os mesmos, pois so representam a quebra com as convenções impostas pela sociedade.

Assim como Parsifal precisa de Kundry, pois o inocente simplesmente "não sabe", mas o puro "conhece" e aprende a renunciar.

Sieglinde/Sigmund x Brünhilde/Siegfried

“O que esta no alto é como o que esta embaixo e o que esta embaixo é como o que esta no alto, para assim realizar o milagre da Unidade”.
Esta é a fórmula tradicional do método de analogia, da Tábua de Esmeralda de Hérmes Trimegisto aplicada em relação ao espaço (no alto e embaixo).
Aplicando a fórmula em relação ao tempo (passado e futuro) podemos dizer “Aquilo que foi é como aquilo que será e aquilo que será é como aquilo que foi.”
Assim como o crepúsculo dos deuses já estava previsto no Ouro do Reno.
Partindo desse ponto, proponho uma relação entre 4 personagens-chave para toda a trama de “Der Ring des Nibelungen”:
Sieglinde/Siegmund e Brünhilde/Siegfried.

Mais do que uma relação de espelhamentos, temos nos personagens o ponto central de onde nossa peça encontra manifestação na relação tempo e espaço. Conforme indica a figura abaixo:
Para facilitar a compreensão podemos utilizar a grande cruz da Astrologia com os eixos Capricórnio/Câncer e Áries/Libra, onde teremos os personagens da seguinte maneira:
Partindo da relação “tempo”, temos os 2 irmãos, que são gêmeos, separados na infância, onde Siegmund conquistando experiências, lutando para ser um ser livre na busca pela Verdade, ao lado de “Wolf”, quando desarmado e inofensivo chega ao lar de Sieglinde, mas claro, ainda não consciente.
Este arquétipo do passado (“Siegmund”) precisa manifestar-se no presente (“Sieglinde”) assim como a manifestação embaixo (“Brünhilde”) só ocorre como objeto do protótipo que vem do alto (Siegfried), ou seja, Siegmund precisa de Sieglinde e Brünhilde precisará de Siegfried.
Porém a relação “tempo” precisa da relação “espaço” para manifestar-se, e simultâneamente teremos Brünhilde agindo pelos mesmos princípios de Siegmund (por mais que ela siga as ordens de Wotan, o compromisso de Brünhilde é, antes de tudo, com a Verdade).
Siegmund e Sieglinde são irmãos enquanto alma gêmeas, seres que provém dos mesmos progenitores, mesma “fonte”, compartilham os mesmos princípios e ideais, onde porém esse anseio pela verdade está preso à estrutura do tempo, horizontal (analogia com o signo de gêmeos) e por receberem toda a proteção de Wotan, o Deus dos tratados e acordos, o Deus incapaz de criar um ser livre, apenas servirão como fonte para, em uma estrutura vertical (analogia com o signo de Sagitário), criarem um ser que possa ser mais livre do que o próprio Deus Wotan, livre das convenções, onde podemos aqui até relacionar Wotan e sua estrutura “Walhalla” com os dogmas da igreja, que ofuscam a verdadeira espiritualidade.
É Sieglinde que nomeará Siegmund (onde o nome é fruto do amor que ela tem por ele) , assim como é Brünhilde que nomeará Siegfried.
Brünhilde será, como um gesto de auto sacrifício, “aprisionada” pelo próprio Wotan simplesmente para que Siegfried possa vir à luz. E será Siegfried, somente ele, que depois irá libertá-la para tornar-se o grande herói, o grande “cordeiro” que será sacrificado para que um novo mundo seja possível.
(Este tema foi proposto através do link “sugestões de novos temas” no blog versão francesa por “kundry 06”)

KUNDRY : vilã ou heroína?


Uma das coisas que mais me atraem em um personagem é a força de caráter que ele porta.

Dos nossos heróis wagnerianos sem dúvida que todos portam uma força incrível, mas alguns não são necessariamente heróis, porém conquistam essa força e tornam-se heróis.

Brünhilde, por exemplo, é naturalmente uma heroína, mas penso no caso em Kundry, que é justamente aquela que vai testar o herói, mas que é também o espelho fundamental para Parsifal, sem a qual ele não salvaria Montsalvat.

Kundry... misteriosa, sem origem conhecida, com olhos que tudo vêem e ouvidos que tudo ouvem, que acompanha os cavaleiros seja na salvação ou na perdição. Ela que atravessa continentes, planos, dimensões; destinada a errar pelo mundo, portando em si o conhecimento, é a serpente, a mulher enquanto “Eva”, enquanto princípio.

Kundry que serve à dois senhores: ao Graal quando dispertada por Gurnemaz, à Magia (negra) quando dispertada por Klingsor. É a mulher selvagem, a mulher sedutora, a mulher servidora. É ela que dominada pelos seus desejos inferiores, de natureza sensual, que incita os cavaleiros a perderem o domínio de sua energia criadora, é ela, e somente ela que pode indicar os caminhos à Parsifal, que é inocente até conhecer Kundry, quando ela proporciona à Parsifal à possibilidade de, através do conhecimento, transformar essa inocência infantil que só é inocente pois não conhece, em uma pureza que aprende a renunciar.

Parsifal precisa inclusive da maldição de Kundry, que diz que ela encontrará todos os caminhos, salvo aquele que ele busca, pois é só errando pelo mundo que ele conquista as experiências do mundo, de utilisar a lança, o poder espiritual, para curar, nunca para ferir, e depois de servir pelo mundo finalmente conquistar o mérito de tornar-se rei do castelo de Montsalvat e curar a humanidade, curar Amfortas, o homen caído.

De Herodias, a mulher que pediu a cabeça de João Batista em uma bandeja, à Maria Madalena, a mulher que Jesus Cristo expulsou 7 demônios, que lava os pés de Jesus e O vê após à Ressureição, Kundry é um universo de possibilidades.

É a grande figura wagneriana, criada pelo próprio Richard Wagner, pois não temos referências mitológicas exatas à respeito de Kundry da forma que encontramos na Kundry de Wagner.

Um estudo de misticismo designa como método de disciplina espiritual, o que chamamos de 3 votos: Voto da Pobreza, da Obediência e da Castidade. Esses 3 votos são em sua essência, lembranças do “Paraíso”, onde chamamos de Obediência quando o homen era unido à Deus, onde ele possuia tudo na medida que necessitava (sem apegos), que chamamos de Pobreza, e onde sua companheira era por sua vez sua esposa, sua amiga, sua mãe e sua irmã, que chamamos de Castidade. Pois a comunhão total entre o espírito e o corpo implica na integralidade absoluta do ser espiritual, anímico e corporal, no amor puro e casto, pois ai ama-se da totalidade do ser. Amar é sentir algo como plenamente real, despertando –se para a realidade de nós mesmos,que nos levará para a realidade do outro, do próximo, da humanidade.

Kundry, que desperta Parsifal para a realidade de si-mesmo no momento que ela o nomeia, vai passar por “mãe”, como que guia (amiga) para que ele descubra suas origens, até passar-se por esposa, amante revelando à ele mais do que as dores do mundo, as dores de amfortas, mas sim o Amor e as dores da Paixão, quando não conseguimos vivenciar esse amor puro e casto, até mostrar seu destino maduro para Parsifal implorando uma redenção, e deixando claro para Parsifal que ele só aliviará essa dor da Paixão indo ao encontro do amor pela humanidade.

Kundry, condenada à errar por vidas e mais vidas, precisa encontrar aquele que à rejeita, aquele que acessa o conhecimento (“KUNDe”que significa conhecimento em alemão, com o mesmo radical que KUNDry. No segundo ato Kundry diz à Parsifal: “Was zog dich hier, wenn nicht de Kunde Wunsch?” O que te atraíu até aqui senão o desejo do conhecimento?) do mundo, horizontal, que Kundry proporciona e que será a base para a conquista do conhecimento vertical, a sabedoria espiritual.

E Kundry após servir como caminho para o processo de Iniciação de Parsifal, finalmente acessa ao Graal, participa da cerimônia iniciática e pode, mais do que morrer, libertar-se da roda do destino, dos ciclos incarnatórios, conquistando a esperada redenção.

E claro, dedico esse texto à querida Waltraud Meier, que muito contribui nas inspirações à respeito de Kundry, que porta em si a sintese das possiveis incarnações da personagem (Herodias, Maria Madalena, Gundriggia, etc) e que é (na minha opinião) A melhor Kundry de todos os tempos!


Para aqueles que se interessarem sobre os métodos de disciplina espiritual, segue indicação da fonte: "Meditações sobre os 22 Arcanos Maiores do Tarot", autor anônimo.

O olhar... a chave para entender o amor entre Tristan e Isolde

Uma das chaves para chegar ao coração de Tristan e Isolde é refletir a respeito do significado do olhar.

Os olhos são um dos órgãos bem complexos do ser humano, e por isso é regido pela influência de vários planetas: Urano, Sol, Lua, o signo de Áries e as estrelas fixas Ascelli (em Leão) , Antares (em Sagitário) e Plêiades (em Touro).

Porém o olhar, podemos atribuí-lo a Urano. Os símbolos que compõem as representações planetárias são 3: o círculo, o semi – círculo e a cruz. Partindo do princípio que o próprio símbolo de cada planeta já indica suas principais características, teremos, em termos gerais, no círculo uma relação com o espírito, pois é a mais perfeita forma geométrica (completo em si mesmo, sem começo e nem fim), representa a totalidade, a dimensão espiritual; na meia-lua uma relação com a dimensão da alma, pois é como um recipiente que recolhe a essência de cada experiência, onde encontra-se e desenvolve-se talentos; e na cruz uma relação com a matéria, com o corpo humano, a cruxificação do espírito no plano terrestre. Veja a tabela completa abaixo:

Podemos observar que URANO é o único planeta que porta todos os símbolos, incluíndo as 2 meias luas, ou seja, porta o espírito, a alma (sendo a própria lua, porém aqui as meias luas opostas) e a cruz. Ou seja, o olhar é um portal de acesso ao que há de mais puro e profundo em cada ser.

Foi quando Tristan e Isolde acessaram um à alma do outro que tudo começou, pois através do olhar, através de Urano, foi possível uma comunicação e um reconhecimento entre suas almas. Urano oferece mais do que um “acesso”, mas sim uma revelação, quando, claro, se tem “a nota chave” de acesso para cada ser, ou seja, quando existe Amor.