Foto de Alvaro Garcia, Jornal "El Pais"
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Amfortas e a ferida da humanidade

Em diferentes versões do mito de “Perceval”, a ferida do Rei encontra-se justamente na região sacral, ou seja, nos orgãos genitais. Em sua obra “Parsifal”, Wagner representa a ferida do rei Amfortas na região abdominal, justamente no “lado”. Uma possível interpretação seria a analogia da ferida de Amfortas com a ferida de Jesus Cristo. Porém Amfortas não é o “Redentor”, mas sim espera pelo Redentor.

Como vimos com a Annick de Souzenelle, as palavras “costela” e “lado” são a mesma palavra em hebreu. Eva foi feita, não da costela, mas do “lado” de Adão, representando o seu lado feminino, aquele que ele deve unir-se, tomar como esposa, para tornar-se um Ser completo.

Amfortas porta a ferida incurável no “lado”, pois não sabendo dominar-se, deixou-se seduzir, caindo do nível divino para o nível carnal. Mas por que Parsifal resiste ao poder de sedução de Kundry? Sendo o puro, tolo, inocente, Parsifal é ainda ingênuo, precisa de alguém que lhe indique o caminho do casamento místico, o casamento do masculino e feminino que deve acontecer no interior de nós. E quem mostra tal caminho é justamente Kundry, o feminino em si, lembrando à Parsifal a memória de sua “mãe”. O ser humano tem uma memória secreta o ensinando que seu destino divino é o casamento com sua “mãe das profundezas” , seu femino interior, devendo então buscar o equilíbrio entre seus pólos feminino e masculino. “Macho”, masculino, em hebreu significa “se lembrar” e “fêmea”, feminino, significa “recipiente que contém”. O ser humano, criado a imagem e semelhança de Deus, trabalha seu pólo masculino uma vez que se lembra da Imagem de Deus enquanto sua essência, partindo assim à conquista do seu “feminino” interior, a imensa reserva de energia que jorra da inesgotável e profunda fonte interior do seu Ser.

Partindo de uma visão simplista, Kundry seria a figura da “prostituta”; definição aceitável se partirmos do idioma hebreu, onde prostituta e santa são a mesma palavra! Pois Kundry nada mais é que o espelho que Parsifal precisa.

A pureza de Parsifal o permite ver essa dualidade em Kundry, tanto que seu destino é exatamente aquele indicado por Kundry: ele vai errar pelo mundo, encontrar todos os caminhos exceto aquele que ele procura, que é o caminho que leva à Amfortas, para poder curá-lo.

Em sua errança pelo mundo, utilizando apenas do poder curador da lança, ele é o Servo de todos, e através do Serviço, de uma vida pura, ele “conquista” seu lado feminino, seu casamento com o divino, podendo assim indicar o caminho para Amfortas, finalmente curando-o.

Lembremos que nós, enquanto humanidade, portamos a mesma ferida que Amfortas, caímos do nível divino para o nível carnal, onde dependemos também do “Redentor”. Conquistemos nossa pureza interior, através do amor, tornando-nos “Parsifal” para assim também não so aguardarmos pela redenção mas sim colaborarmos no alívio da dor da humanidade.

Parsifal x Kundry: uma relação que leva do "puro, tolo" ao Iniciado

É interessante observar algumas semelhanças e, em alguns casos, os antagonismos, que apontam uma forte relação entre Parsifal, o Salvador, aquele que trilha o caminho espiritual, e Kundry, a tentadora, que justamente parece desviar Parsifal de seu caminho. Vejamos alguns itens:

1° ) Desde o começo da peça , a primeira vez que Kundry entra em cena , podemos perceber uma forte variação orquestral, uma “tensão” musical, como que representando um incômodo aos cavaleiros de Mont Salvat, como mostra o video abaixo.



Tensão que ocorre também quando Parsifal entra em cena, após matar o cisne.




2°) Em todas as religiões, o espírito vivificante tem sido simbolicamente representado por uma ave. No cisne temos uma representação para o neófito que, trilhando um caminho espiritual, busca auto conhecimento e auto controle, e que, quando torna-se um Iniciado, encontra-se imune ao efeito dos 4 elementos basicos: ar, agua, terra e fogo. O cisne pode “atravessar” pelos quatro elementos, ele pode tanto voar (ar), como nadar (agua), como caminhar sobre a terra (terra) e por ter uma unica parceira em sua existência (representando um dominio das paixoes), simboliza também o dominio sobre o fogo.

Parsifal matou o cisne. Porém a sequência da cena nos mostra que Parsifal precisa passar pela prova de auto controle e tornar-se um Iniciado, pois nos revela uma série de indícios fazendo alusão aos 4 elementos:

Quando Kundry diz a Parsifal que sua mãe esta morta, ele tenta machucá-la, jogando-a no chão (chão em francês, “parterre”), indicando o elemento terra. Quando Gurnemaz o afasta ele se sente sufocado, sentindo falta de ar: elemento ar. Kundry, mesmo tendo sido atacada por Parsifal, piedosamente vai buscar água para ajudá-lo: elemento água. Faltando o elemento fogo: a paixão que Parsifal sentirá por Kundry no segundo ato.

3°) Ainda analisando o fato de Parsifal ter matado o cisne, um terrivel crime nas terras de Mont Salvat, que foi justamente Kundry que nos disse um pouco antes, quando é tratada como um animal:

Sind die Tiere hier nicht helig?
Os animais não são sagrados aqui?


4°) Mesmo Gurnemaz compara Parsifal a Kundry, quando questiona Parsifal sobre suas origens e ele não sabe responder. Gurnemaz diz:

So dumm wie den
Alguém de estupidez proporcional à dele,
erfand bisher ich Kundry nur!
até hoje só achei Kundry!

E esta relação entre Parsifal e Kundry, que vai aos seus limites no segundo ato, vai até o fim, onde Kundry, após ter conduzido Parsifal ao caminho do conhecimento em todos os níveis, morre. E Parsifal vive. Morte e Vida que representam a magia que impera no milagre da eternidade.

A alquimia do Preludio de "Tristan und Isolde"

Wagner tem por caracteristica, em seus preludios, fazer um resumo de todo o drama que esta para acontecer.

Em "Tristan und Isolde" não é diferente. A harmonia entre os leitmotivs nos transmete 4 idéias gerais:

AMOR - OLHAR / MORTE - DESEJO

O OLHAR que fez surgir o AMOR, e o DESEJO que leva à MORTE. Assim como Parsifal falaria à Tristan: "A fonte do mal, da infelicidade, esta nos desejos do mundo, é preciso beber de outras fontes...".

Porém como pode o olhar que desvenda os mistérios da alma, que conduz ao amor, ser maculado pelo desejo, que leva à morte?

Mais uma vez a Astrologia nos aponta um caminho interessante. Nesta relação temos os 4 signos fixos: Touro, Leão, Escorpião e Aquario, conforme nos mostra a figura abaixo:


Sabemos que onde ha luz ha também sombra, e quanto maior a luz, maior a sombra. A sombra do Amor é a paixão, que porta em si o desejo, onde os amantes apos beberem o filtro (que nada mais é que do que a quebra do convencionalismo) traz essa paixão à tona.

Porém esse amor porta em si uma inocência dada que deve ser transformada em uma pureza conquistada, ou seja, precisa da experiência da paixão que vai trazer o conhecimento, é o amor que envolto na paixão vai buscar a transmutação dessa paixão conquistando não mais a inocência, mas sim a pureza do amor, rica em sabedoria.

Essa experiência de amor e morte é também simbolizada pelos filtros, pela troca dos filtros, que, enquanto essência, filtro de amor e morte são os mesmos, pois so representam a quebra com as convenções impostas pela sociedade.

Assim como Parsifal precisa de Kundry, pois o inocente simplesmente "não sabe", mas o puro "conhece" e aprende a renunciar.

KUNDRY : vilã ou heroína?


Uma das coisas que mais me atraem em um personagem é a força de caráter que ele porta.

Dos nossos heróis wagnerianos sem dúvida que todos portam uma força incrível, mas alguns não são necessariamente heróis, porém conquistam essa força e tornam-se heróis.

Brünhilde, por exemplo, é naturalmente uma heroína, mas penso no caso em Kundry, que é justamente aquela que vai testar o herói, mas que é também o espelho fundamental para Parsifal, sem a qual ele não salvaria Montsalvat.

Kundry... misteriosa, sem origem conhecida, com olhos que tudo vêem e ouvidos que tudo ouvem, que acompanha os cavaleiros seja na salvação ou na perdição. Ela que atravessa continentes, planos, dimensões; destinada a errar pelo mundo, portando em si o conhecimento, é a serpente, a mulher enquanto “Eva”, enquanto princípio.

Kundry que serve à dois senhores: ao Graal quando dispertada por Gurnemaz, à Magia (negra) quando dispertada por Klingsor. É a mulher selvagem, a mulher sedutora, a mulher servidora. É ela que dominada pelos seus desejos inferiores, de natureza sensual, que incita os cavaleiros a perderem o domínio de sua energia criadora, é ela, e somente ela que pode indicar os caminhos à Parsifal, que é inocente até conhecer Kundry, quando ela proporciona à Parsifal à possibilidade de, através do conhecimento, transformar essa inocência infantil que só é inocente pois não conhece, em uma pureza que aprende a renunciar.

Parsifal precisa inclusive da maldição de Kundry, que diz que ela encontrará todos os caminhos, salvo aquele que ele busca, pois é só errando pelo mundo que ele conquista as experiências do mundo, de utilisar a lança, o poder espiritual, para curar, nunca para ferir, e depois de servir pelo mundo finalmente conquistar o mérito de tornar-se rei do castelo de Montsalvat e curar a humanidade, curar Amfortas, o homen caído.

De Herodias, a mulher que pediu a cabeça de João Batista em uma bandeja, à Maria Madalena, a mulher que Jesus Cristo expulsou 7 demônios, que lava os pés de Jesus e O vê após à Ressureição, Kundry é um universo de possibilidades.

É a grande figura wagneriana, criada pelo próprio Richard Wagner, pois não temos referências mitológicas exatas à respeito de Kundry da forma que encontramos na Kundry de Wagner.

Um estudo de misticismo designa como método de disciplina espiritual, o que chamamos de 3 votos: Voto da Pobreza, da Obediência e da Castidade. Esses 3 votos são em sua essência, lembranças do “Paraíso”, onde chamamos de Obediência quando o homen era unido à Deus, onde ele possuia tudo na medida que necessitava (sem apegos), que chamamos de Pobreza, e onde sua companheira era por sua vez sua esposa, sua amiga, sua mãe e sua irmã, que chamamos de Castidade. Pois a comunhão total entre o espírito e o corpo implica na integralidade absoluta do ser espiritual, anímico e corporal, no amor puro e casto, pois ai ama-se da totalidade do ser. Amar é sentir algo como plenamente real, despertando –se para a realidade de nós mesmos,que nos levará para a realidade do outro, do próximo, da humanidade.

Kundry, que desperta Parsifal para a realidade de si-mesmo no momento que ela o nomeia, vai passar por “mãe”, como que guia (amiga) para que ele descubra suas origens, até passar-se por esposa, amante revelando à ele mais do que as dores do mundo, as dores de amfortas, mas sim o Amor e as dores da Paixão, quando não conseguimos vivenciar esse amor puro e casto, até mostrar seu destino maduro para Parsifal implorando uma redenção, e deixando claro para Parsifal que ele só aliviará essa dor da Paixão indo ao encontro do amor pela humanidade.

Kundry, condenada à errar por vidas e mais vidas, precisa encontrar aquele que à rejeita, aquele que acessa o conhecimento (“KUNDe”que significa conhecimento em alemão, com o mesmo radical que KUNDry. No segundo ato Kundry diz à Parsifal: “Was zog dich hier, wenn nicht de Kunde Wunsch?” O que te atraíu até aqui senão o desejo do conhecimento?) do mundo, horizontal, que Kundry proporciona e que será a base para a conquista do conhecimento vertical, a sabedoria espiritual.

E Kundry após servir como caminho para o processo de Iniciação de Parsifal, finalmente acessa ao Graal, participa da cerimônia iniciática e pode, mais do que morrer, libertar-se da roda do destino, dos ciclos incarnatórios, conquistando a esperada redenção.

E claro, dedico esse texto à querida Waltraud Meier, que muito contribui nas inspirações à respeito de Kundry, que porta em si a sintese das possiveis incarnações da personagem (Herodias, Maria Madalena, Gundriggia, etc) e que é (na minha opinião) A melhor Kundry de todos os tempos!


Para aqueles que se interessarem sobre os métodos de disciplina espiritual, segue indicação da fonte: "Meditações sobre os 22 Arcanos Maiores do Tarot", autor anônimo.

Parsifal e os grandes mitos, presentes para a humanidade


Parsifal talvez seja a opera mais monumental de toda historia! é evidente que ela merece um grande espaço para ser trabalhada entre nos! Um dos elementos que mais me fascinam no "mundo wagneriano" é a capacidade de Wagner trabalhar sobre os grandes mitos que fazem parte da historia da humanidade. Acredito que seja uma idéia errônea supor que um mito é uma invenção da fantasia humana, sem fundamento. Ao contrário, um mito é uma caixa de mistérios contendo as mais profundas e preciosas jóias da verdade espiritual, pérolas de beleza tão rara e etérica que não podem permanecer expostas ao intelecto material. "Recebemos" esse "presente", porém envoltas no simbolismo dos mitos, para que possam trabalhar sobre nossos sentimentos até que nossos intelectos possam compreender (porém com maturidade e um nivel de pureza conquistada, para que não façamos "besteiras" com as revelaçoes recebidas), assim como ensinamos nossos filhos conceitos morais através de contos de fadas, que trazem muitos ensinamentos também, quando vistos com olhos atentos.

Nosso querido Richard Wagner com sua genialidade conseguiu dar forma a essas estruturas miticas e transmiti-las através da arte, talvez, mais sublime: a musica! ou como ele diria: os dramas musicais!