Foto de Alvaro Garcia, Jornal "El Pais"
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A união de Siegmund e Sieglinde e o Equinocio da Primavera

"Winterstürme wichen dem Wonnemond,
Vão-se, em maio, as tormentas do inverno;

in mildem Lichte
em meiga luz

leuchtet der Lenz;

fulgura a Primavera;
auf lauen Lüften

pelos ares temperados,

lind und lieblich,
amenos e meigos,

Wunder webend

operando seus milagres,
er sich wiegt:

ela se move:

durch Wald und Auen

por florestas e prados,

weht sein Atem,

sopra o seu fôlego;

weit geöffnet

amplamente abertos,

lacht sein Aug’.

seus olhos sorriem.
Aus sel’ger Vöglein Sange
No gorjeio feliz do pássaro,

süß er tönt,
docemente ela ressoa;

holde Düfte

adoráveis fragrâncias

haucht er aus:

exala pelos espaços:

seinem warmen Blut entblühen

seu cálido sangue floresce

wonnige Blumen,
deleitosas flores;
Keim und Sproß
entspringt seiner Kraft.
seu alento desabrocha gérmens e rebentos.

Mit zarter Waffen Zier

Com a beleza de tenras armas

bezwingt er die Welt;

ela domina o Mundo;
Winter und Sturm wichen
der starken Wehr:
vão-se as fortes defesas do inverno e da tormenta:
Wohl mußte den tapfern Streichen

A esses intrépidos ventos, bem devem

die strenge Türe auch weichen,

ceder também as fortes portas;
die trotzig und starr

eles, obstinados e rijos,

uns - trennte von ihm.

apartam-nos dela.

Zu seiner Schwester

Por seu irmão

schwang er sich her;

moveu-se ela para cá;
die Liebe lockte den Lenz:

o amor cortejou a primavera:
in unsrem Busen

em nosso peito

barg sie sich tief;

alojaram-se, ao fundo,

nun lacht sie selig dem Licht.

e agora riem-se, felizes, à luz.

Die bräutliche Schwester

Ao irmão noivo
befreite der Bruder;
a irmã liberta;

zertrümmert liegt,
was sie je getrennt;
cai por terra o que esteve a separá-los;

jauchzend grüßt sich

exultante, saúda-se

das junge Paar:

o jovem par:

vereint sind Liebe und Lenz!

unidos estão Amor e Primavera!
"

...é incrivel como a poesia desse trecho do libreto do primeiro ato de "As Valquirias" ja fala por si só!

Guardemos essa magia da poesia, mas aprofundemos em algumas mensagens místicas que essa ária incrivel vem nos mostrar.

Recapitulando brevemente, estamos na "segunda noite" da tetralogia de "O anel do Nibelungo", na ópera "As Valquirias" . Primeiramente, vimos que Wotan, o Deus que não consegue ser livre dos seus próprios acordos e tratados, criou os "Walsungs", raça formada da mistura de deuses com humanos, onde ali teria colocado sua esperança de liberdade. Tal esperança existe até o momento que Wotan é confrontado por Fricka, espírito do convencionalismo, que lhe mostra que ele que criou Siegmund, logo, ele é condicionado as vontades de Wotan, ou seja, Siegmund tambem não é livre...

Siegmund precisa romper sua ligação, seu "cordão umbilical" com Wotan para poder conquistar sua liberdade, desde que seja por sua própria vontade. Isso acontece quando ele conhece Sieglinde, sua alma-irmã, sua "Eva", aquele algo que ele sempre buscou e que na verdade faz parte dele.

Aqui é interessante conhecermos os estudos de Annick de Souzenelle, que diz que "Eva" foi atribuida ao conceito de mulher, enquanto divisão dos sexos; porém assim como o nome Eva (em hebreu Ishah) significa costela, significa também lado. Eva foi "feita" do "lado" de Adão, porém sendo ela mesma uma representação do outro lado de Adão, sendo o lado feminino dos pólos feminino e masculino do ser humano. Partindo desse principio, buscar a "alma gêmea", simbolicamente, representa primeiramente uma união em si mesmo para nos tornarmos seres completos.

Sieglinde e Siegmund são irmão gêmeos. Eles cresceram separados e agora estão prontos para esse rencontro, essa união em si mesmos, onde, só depois de tornarem-se este “Ser completo” podem gerar um outro ser, também completo; esse sim, livre. Assim temos Siegfried.

Essa união acontece em uma noite muito especial, no momento do Equinocio da Primavera que se dá justamente no início da Primavera (no hemisfério norte), momento que o sol cruza o equador e começa a ascender no hemisfério norte, que a duração do dia e da noite são iguais, de 12 horas (equilibrio entre dia e noite, entre luz e sombra). Neste momento o Sol deixa o aquoso signo de Peixes, que é também feminino e dócil, pelo marcial vigoroso e ígneo signo de Áries, o carneiro ou cordeiro, onde é exaltado em poder. É o momento onde a terra revigora-se, a natureza ganha seu verde, os animais procriam e os seres humanos podem desfrutar de uma energia incrível.

Momento propício para grandes seres incarnarem e realizarem um trabalho de eleveção vibratória na Terra, momento da concepção do nosso herói Siegfried, aquele que através da vitoria ganha a paz, que traz as carateristicas dos signos de Peixes e Áries, que será também o cordeiro sacrificial que libertará os deuses e proporcionará um novo recomeço.

Finalizemos com o poesia que responde Sieglinde, falando desse casamento mistico.

"Du bist der Lenz,
Tu és a Primavera,

nach dem ich verlangte

por quem ansiei

in frostigen Winters Frist.

no frígido tempo do inverno
.
Dich grüßte mein Herz

Saudou-te o meu coração,

mit heiligen Grau’n,

com temor sacral,

als dein Blick zuerst mir erblühte.

quando teu olhar
pela primeira vez me despertou. Fremdes nur sah ich von je,
Só estranhos antes eu via,

freundlos war mir das Nahe;

envolta por uma cercania sem amigos;

als hätt’ ich nie es gekannt,

como formas que eu jamais conhecera,

war, was immer mir kam.

era tudo o que me sempre vinha.

Doch dich kannt’ ich

Mas a ti eu identifiquei

deutlich und klar:

com nitidez e clareza:

als mein Auge dich sah,

assim que meus olhos te viram,

warst du mein Eigen;

te tornaste meu;
was im Busen ich barg,

o que eu guardava no peito,

was ich bin,

o que eu sou,

hell wie der Tag

claro como o dia

taucht’ es mir auf,

emergiu de mim,

wie tönender Schall

qual sonante eco

schlug’s an mein Ohr,

batendo em meus ouvidos,

als in frostig öder Fremde

quando, em meio à fria e deserta estranheza,

zuerst ich den Freund ersah.

vi pela primeira vez o amigo.
"

(meus especiais agradecimentos ao site "Wagner em portugues", pela bela tradução do libreto)

Idéais vindas da natureza

Nada como a natureza para inspirar algumas montagens wagnerianas...

Ja imagino essa arvore como a "Yggdrasil" no meio da casa de Hunding e Sieglinde!
Construindo a "casa" em volta e colocando a espada Nothung enfincada , pronto, ja temos o cenario para o primeiro ato de "Die Walküre"!



Que tal a "gruta" que forma essa arvore para o cenario do segundo ato de "Tristan und Isolde"?

Consigo até para imaginar as folhas caindo na medida que avança a noite, representando uma mudança, seja de estação (do outono para o inverno), seja de turno do dia para noite, seja da paixão para o amor, seja da vida para a morte...






E que tal esse modelo de lança para Wotan?

Onde os acordos e tratados são talhados de tal forma que chegam à emitir luz?










Inspirações...



West Eastern Divan Orchestre, Daniel Barenboim e Waltraud Meier

Aqui esta um pequeno trecho do concerto que recebeu mais de 15 minutos de aplausos neste 25/08/2008 na Salle Pleyel, em Paris.



Este foi mais um maravilhoso concerto que a nossa querida Waltraud Meier juntamente com os cantores René Pape, Simon O'Neill e com a West Eastern Divan orquestra, sob a direção de Daniel Barenboim, nos proporcionou.

Esta orquestra, que conta com estudantes de música de países tidos como inimigos políticos, como a Síria, Líbano, Egito, Jordânia, Tunísia e Israel, é o grande projeto do maestro Daniel Barenboim (argentino, de descendência judaica) e o filósofo e professor da Universidade de Columbia, Edward Said (de origem palestina), que faleceu em 2003. Uma oportunidade para que jovens músicos do Oriente Médio pudessem combinar estudos musicais com diálogos sobre a sempre tensa situação entre Israelenses e Palestinos.

Este foi um grande momento para esta incrivel orquestra. No final do concerto, Daniel Barenboim, apos cumprimentar todos os musicos da orquestra, dirigiu-se para publico da Salle Pleyel dizendo: "Ajudem-nos!" Como que um apelo, Daniel Barenboim pede à seu publico um apoio para que este projeto possa vencer as barreiras impostas pelos paises de origem dos musicos que formam a orquestra, completando que o objetivo é que esta orquestra possa se apresentar livremente em todo Oriente Médio e que seja uma representação de uma mensagem de paz e de uma possibilidade de dialogo entre esses povos, quebrando a barreira da ignorância cultural que existe em certos paises.

Mais do que um concerto especial, vivemos uma experiência espiritual e musical unica, onde a musica realmente torna-se a linguagem universal e onde a voz do coração torna-se a verdadeira razão!

Muito obrigada à todos por essa noite inesquecivel!

(Assista outros videos deste concerto clicando aqui.)

obs: uma foto do publico, onde apareço junto com meu marido! que privilégio!

Sieglinde/Sigmund x Brünhilde/Siegfried

“O que esta no alto é como o que esta embaixo e o que esta embaixo é como o que esta no alto, para assim realizar o milagre da Unidade”.
Esta é a fórmula tradicional do método de analogia, da Tábua de Esmeralda de Hérmes Trimegisto aplicada em relação ao espaço (no alto e embaixo).
Aplicando a fórmula em relação ao tempo (passado e futuro) podemos dizer “Aquilo que foi é como aquilo que será e aquilo que será é como aquilo que foi.”
Assim como o crepúsculo dos deuses já estava previsto no Ouro do Reno.
Partindo desse ponto, proponho uma relação entre 4 personagens-chave para toda a trama de “Der Ring des Nibelungen”:
Sieglinde/Siegmund e Brünhilde/Siegfried.

Mais do que uma relação de espelhamentos, temos nos personagens o ponto central de onde nossa peça encontra manifestação na relação tempo e espaço. Conforme indica a figura abaixo:
Para facilitar a compreensão podemos utilizar a grande cruz da Astrologia com os eixos Capricórnio/Câncer e Áries/Libra, onde teremos os personagens da seguinte maneira:
Partindo da relação “tempo”, temos os 2 irmãos, que são gêmeos, separados na infância, onde Siegmund conquistando experiências, lutando para ser um ser livre na busca pela Verdade, ao lado de “Wolf”, quando desarmado e inofensivo chega ao lar de Sieglinde, mas claro, ainda não consciente.
Este arquétipo do passado (“Siegmund”) precisa manifestar-se no presente (“Sieglinde”) assim como a manifestação embaixo (“Brünhilde”) só ocorre como objeto do protótipo que vem do alto (Siegfried), ou seja, Siegmund precisa de Sieglinde e Brünhilde precisará de Siegfried.
Porém a relação “tempo” precisa da relação “espaço” para manifestar-se, e simultâneamente teremos Brünhilde agindo pelos mesmos princípios de Siegmund (por mais que ela siga as ordens de Wotan, o compromisso de Brünhilde é, antes de tudo, com a Verdade).
Siegmund e Sieglinde são irmãos enquanto alma gêmeas, seres que provém dos mesmos progenitores, mesma “fonte”, compartilham os mesmos princípios e ideais, onde porém esse anseio pela verdade está preso à estrutura do tempo, horizontal (analogia com o signo de gêmeos) e por receberem toda a proteção de Wotan, o Deus dos tratados e acordos, o Deus incapaz de criar um ser livre, apenas servirão como fonte para, em uma estrutura vertical (analogia com o signo de Sagitário), criarem um ser que possa ser mais livre do que o próprio Deus Wotan, livre das convenções, onde podemos aqui até relacionar Wotan e sua estrutura “Walhalla” com os dogmas da igreja, que ofuscam a verdadeira espiritualidade.
É Sieglinde que nomeará Siegmund (onde o nome é fruto do amor que ela tem por ele) , assim como é Brünhilde que nomeará Siegfried.
Brünhilde será, como um gesto de auto sacrifício, “aprisionada” pelo próprio Wotan simplesmente para que Siegfried possa vir à luz. E será Siegfried, somente ele, que depois irá libertá-la para tornar-se o grande herói, o grande “cordeiro” que será sacrificado para que um novo mundo seja possível.
(Este tema foi proposto através do link “sugestões de novos temas” no blog versão francesa por “kundry 06”)