Foto de Alvaro Garcia, Jornal "El Pais"

Parsifal x Kundry: uma relação que leva do "puro, tolo" ao Iniciado

É interessante observar algumas semelhanças e, em alguns casos, os antagonismos, que apontam uma forte relação entre Parsifal, o Salvador, aquele que trilha o caminho espiritual, e Kundry, a tentadora, que justamente parece desviar Parsifal de seu caminho. Vejamos alguns itens:

1° ) Desde o começo da peça , a primeira vez que Kundry entra em cena , podemos perceber uma forte variação orquestral, uma “tensão” musical, como que representando um incômodo aos cavaleiros de Mont Salvat, como mostra o video abaixo.

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Tensão que ocorre também quando Parsifal entra em cena, após matar o cisne.

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2°) Em todas as religiões, o espírito vivificante tem sido simbolicamente representado por uma ave. No cisne temos uma representação para o neófito que, trilhando um caminho espiritual, busca auto conhecimento e auto controle, e que, quando torna-se um Iniciado, encontra-se imune ao efeito dos 4 elementos basicos: ar, agua, terra e fogo. O cisne pode “atravessar” pelos quatro elementos, ele pode tanto voar (ar), como nadar (agua), como caminhar sobre a terra (terra) e por ter uma unica parceira em sua existência (representando um dominio das paixoes), simboliza também o dominio sobre o fogo.

Parsifal matou o cisne. Porém a sequência da cena nos mostra que Parsifal precisa passar pela prova de auto controle e tornar-se um Iniciado, pois nos revela uma série de indícios fazendo alusão aos 4 elementos:

Quando Kundry diz a Parsifal que sua mãe esta morta, ele tenta machucá-la, jogando-a no chão (chão em francês, “parterre”), indicando o elemento terra. Quando Gurnemaz o afasta ele se sente sufocado, sentindo falta de ar: elemento ar. Kundry, mesmo tendo sido atacada por Parsifal, piedosamente vai buscar água para ajudá-lo: elemento água. Faltando o elemento fogo: a paixão que Parsifal sentirá por Kundry no segundo ato.

3°) Ainda analisando o fato de Parsifal ter matado o cisne, um terrivel crime nas terras de Mont Salvat, que foi justamente Kundry que nos disse um pouco antes, quando é tratada como um animal:

Sind die Tiere hier nicht helig?
Os animais não são sagrados aqui?


4°) Mesmo Gurnemaz compara Parsifal a Kundry, quando questiona Parsifal sobre suas origens e ele não sabe responder. Gurnemaz diz:

So dumm wie den
Alguém de estupidez proporcional à dele,
erfand bisher ich Kundry nur!
até hoje só achei Kundry!

E esta relação entre Parsifal e Kundry, que vai aos seus limites no segundo ato, vai até o fim, onde Kundry, após ter conduzido Parsifal ao caminho do conhecimento em todos os níveis, morre. E Parsifal vive. Morte e Vida que representam a magia que impera no milagre da eternidade.

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